Sempre me interessou a antiga aproximação entre pintura e poesia sintetizada por Horácio em ut pictura poesis (assim como a pintura, assim é a poesia), sobretudo pela possibilidade de que imagem e narrativa compartilhem procedimentos análogos de construção da experiência, apesar da diferença entre seus meios. Mais do que retomar essa formulação clássica, interessa-me deslocá-la para uma espécie de ut pictura fabula: momentos em que a imagem não apenas se aproxima da narrativa, mas passa a produzir fabulação, reorganizando o enredo e interferindo na sua construção.
Foi dessa busca que surgiu o que passei a chamar de pintura-conto. Desenvolvo pinturas e contos em contracampo, permitindo que uma linguagem esteja ativa na outra sem necessariamente fundir-se. Quando desenvolvo a pintura, faço com que esteja permeada pelo conto, ainda que este não esteja visível no mesmo campo. Quando escrevo o conto, ele está infiltrado pela pintura, no campo de decisões formais e do próprio enredo. Ambas permanecem autônomas e infiltradas. A relação entre ambos não é de fusão, mas de co-presença em contracampo: cada um reorganiza o outro a partir de um fora de campo que permanece ativo.
Tenho interesse em situações nas quais detalhes aparentemente secundários passam a reorganizar a leitura da cena. Objetos e gestos frequentemente operam simultaneamente como parte da cena e como deslocamentos simbólicos, produzindo relações que não se estabilizam inteiramente em uma única interpretação.
Nesse percurso, o conceito de infiltração tornou-se central. Ele define não apenas o tema da minha série atual, mas o próprio modo de relação entre pintura e escrita ficcional. Infiltrar é um movimento lento, progressivo e muitas vezes imperceptível em seu início, que altera as estruturas por dentro. Na série Infiltração, um exemplo concreto disso ocorreu em Além da Meta: um personagem misterioso, em posição de destaque mas sem função aparente no enredo, emergiu da pintura para o conto. A imagem reorganizou a narrativa a partir de um detalhe que, a princípio, parecia não ter protagonismo. No meu processo, essa transferência de procedimentos se dá de modo recorrente: decisões formais da pintura passam a operar no conto, assim como o conto reorganiza decisões pictóricas. Temporalidade, espaço, cor, textura e profundidade tornam-se zonas de passagem entre os dois regimes.
Às vezes, a palavra atua ela mesma como imagem infiltrando-se na pintura. Pode manifestar-se como um elemento extradiegético, não para fixar um sentido, mas para expandi-lo ou tensioná-lo; em outros casos, integra o próprio espaço representado, inscrita em objetos e superfícies.
Interessam-me justamente esses deslocamentos: o momento em que uma linguagem interfere na outra, sem a pretensão de explicá-la ou traduzi-la.
Minhas obras não são produzidas com foco em circulação comercial privada. Meu interesse está sobretudo na experiência pública e expositiva da imagem: na possibilidade de que essas pinturas ocupem salas acessíveis, espaços de circulação institucional e contextos em que possam permanecer abertas à experiência coletiva e compartilhada.
Notas sobre processo: pintura, conto e infiltração



